Palestra com alguém que ignorava o que é a Mina de São Domingos

Ano: 
1924
Descrição: 

Há poucas noites, estando eu e o meu Amigo X a uma mêsa do Suísso, a fazer horas para o Teatro, pediu-me ele, depois de me ter ouvido falar repetidas vezes na Mina de S. Domingos, que lhe desse algumas impressões a respeito dessa terra, que, na sua ideia --ele que só tem conhecido Capitais-considerava, apesar de nunca lá ter ido, um logar impróprio de nele se poder viver, visto que, como Mina, provavelmente só lá haveriam buracos e gente inculta que desconheceria, por certo, a Vida nos seus melhores e mais variados aspectos.
Engana-se, meu Amigo, apressei me eu logo a replicar; se está disposto para a massada, de-me licença!

Faz favor...

Pois bem! Para principiar pelo principio, como manda a lógica, dir-lhe-ei que, a três leguas da Vila de Mertola, lá para o Baixo Alentejo, e a 4 quilómetros antes da fronteira hespanhola, encontra você situada a pitoresca povoação que o meu caro desconhece e que é a Mina de S. Domingos, séde do primeiro e mais rico estabelecimento mineiro de Portugal.

Quem nunca lá foi, como vossê, e só alguma vez, por mero acaso, ouviu falar no seu nome, ha de tambem supor que se trata apenas de alguns hectares de escalavrados terrenos. Puro engano! Eu que já lá vivi alguns anos, não tenho duvida em lhe afirmar que é mais agradavel a vida naquele meio do que talvez em algumas cidades do Paiz!

Sim senhor! A povoação em si é já grande e deve contar para cima de sete mil habitantes; é aformoseada com a arborisação de muitos milhares de eucaliptos, alguns dos quaes seculares e que lhe dão um aspecto panoramico verdadeiramente maravilhoso; tem as suas tapadas enormes, circundadas por mui tas dezenas de hortas e que dão a impressão de dois grandes rios ao forasteiro que pela primeira vez a visita, tapadas por onde no verão a mocidade dá os seus belos passeios em barcos cedidos pela Empreza da Mina.

O Cerro dos Pinheiros, sitio imensamente aprazivel e que a Cupido tem ligada as suas tradições, que fica fronteiro á povoação, de um dos lados da tapada n.° 4, que é a maior, proporciona excelentes momentos de repouso á sombra das suas arvores e á beira daquele imenso lago, nas tardes de verão e nas noites de luar...

Vossê deve calcular que a base principal de todo o movimento da região, mesmo do concelho, é o mineral que o operário que não se importa encurtar a a sua existencia vai arrancar ás entranhas da terra?

-Ah! decerto!

As Oficinas de Máquinas e de Carpinteria, que estão fornecidas dos mais modernos e mais importantes maquinismos, rivalisam com as melhores que hoje existem no Paiz! Nelas se fazem tra balhos da mais alta importancia, como por exemplo, locomotivas para o Caminho de Ferro, etc., etc.

Para a educação das creanças funcionam duas escolas oficiaes, uma do sexo feminino outra do sexo masculino, regidas, a primeira por duas distintas Professoras e a segunda por um Professor que anualmente dão a exame os seus alunos.

-E tem comunicações, a Mina?

-Como em toda a parte, meu caro. Para telegramas há o telefone da Mina para Pomarão e em Pomarão a estação telegrafica oficial. Para a correspondencia ha a estação particular da Empreza mas que presta serviços a toda a gente, da qual é Chefe o sr. André, velho e honrado Empregado que ali tem feito a sua "mochilas e embraquecido os seus cabelos, estação que, ninguem como ele, sabe dirigir sósinho, A correspondencia e jornaes vão todos os dias de Mertola nuna deligencia. Não julgue, meu Amigo, que a Mina é logar onde se travem rixas amiudadas vezes e que não ha quem mantenha a ordem quando tal se torna necessario; não senhor! lá está a sua corporação de Policia, habilmente chefiada pelo sr. Matos, um grande e sincero amigo que eu tenho. Mas note: com os naturaes e residentes é muito raro a policia ter de preocupar-se; a ordem, o pacifismo, são qualidades especiaes daquele bom povo que tem por divisa: Trabalho e a Família. No dia 3 de cada mez rialisa-se lá, desde ha muitos anos, um mercado mensal que é sempre muito concorrido especialmente por hespanhoes, o qual proporciona sempre uma boa tarde aos mi nenses apreciadores de mulheres gordas, coradas e... salerosas, como na sua maioria são as nuestras hermanas, Pausa minha.

Pois sim, meu caro, mas apesar de tudo isso não tem distracções de outro género onde umas vezes por outras se vá recrear o espirito...inar ome

Espere, espere, deixe-me proseguir: tem distracções sim senhor, e bastante apreciaveis! Como assim ?!

E como lhe digo! Ora note: uma Filarmonica que dá concertos todos os domingos no Jardim-porque lá tambem ha Jardim, sabe? Um Teatro onde o Grupo Dramatico e Musical da terra rialisa amiudadas vezes as suas récitas, sempre coroadas do melhor exito. No mesmo Teatro está instalado um cinéma e nele se rialisam tambem durante o ano muitissimos bailes e bailes cheios de graça e de convivio muito sincero, creia. Tem dois grupos de Foot-Ball- o "S. Domingos e o "Guadiana com o seu campo vasto e devidamente preparado, grupos que vossê vai ver munido das equipes necessárias. Não calcula o entusiasmo que lá ha tambem por este género de sport, pois ainda ha poucas semanas lá estiveram teams de Beja e parece-me que de Serpa e defrontaram-se com os da Mina. Os inglezes teem o seu bilhar particular e o Tennis, jogam pouco ao Foot-Ball; os portuguezes, de lá teem pouca predilecção pelo Tennis talvez porque se sintam já satisfeitos com o que teem para passarem o tempo. Vá lá, vá que encontrará, alem de tudo isto a Sociedade denominada "Centro Republicano 5 d'Outubro, de que quasi todos os operarios e Empregados são socios, e que, muito especialmente no inverno, é bastante frequentadas

e recursos médicos, tem tambem?

-Ora essa! Então não tem lá ha vinte e tal anos o seu médico predilecto que é o ex.mo sr. dr. Vargas, creatura que, não só pela sua elevada competencia profissional como pelo seu fino trato ali gosa da maior simpatia? Não tem lá uma Farmácia, um Hospital? Se investigar bem irá dar com uma "Obra de Assistencia aos pobres da região, mantida por quotas, donativos particulares, productos de récitas, etc., e valiosamente subsidiado pela Empreza da Mina; é uma simpatica instituição de recreio, fundada no meu tempo e de que fui um dos cooperadores, a qual, embora modestamente, nalguma coisa auxilia os desprotegidos da sorte que por toda a parte se encontram. Nas noites de verão, naquelas noites em que o luar é mais claro, vosse não calcula o aspecto interessante que oferece a Mina com as suas carreiras de casinhas muito brancas, muito caiadas, ouvindo-se o grasnar permanente, quasi como um côro, de milhares de rãs por aquelas Tapadas afora, e, muitas vezes também, encantadoras serenatas, ao som das quaes eu inumeras noites acordei, deliciando os meus ouvidos com os acordes maviosos que, muito especialmente, da sua Guitarra amada arranca com todo o sentimento o distinto guitarrista F. A. Silvestre, um dos rapazes lá Empregados cheio de ideias e de boa vontade; outras vezes era o som plangente das violas dos eximios tocadores J. M. Rodrigues e J. da Silva Domingues que me faziam despertar! São horas doces, inspiradoras, poéticas mesmo aquelas, garanto-lhe. Eu apreciava-as muito. Para lhe falar de tudo, dir-lhe-ei mais, que, para rapiocadas ha la o Joaquim Cavaco, o João Valentim e muitos outros; para banquêtes o Hotel Firmino. Não tem o Grandela nem o Chiado mas encontrará à Cooperativa, estabelecimento relativamente grande e de um consumo de uns 150 contos por mez.
Para passeios nos arredores há o Porto de Pomarão onde todos os dias se fazem embarques de mineral nos vários vapores que de toda a parte do mundo ali vão propositadamente para esse fim, e a aldeia de Santana de Cambas, cujos trajectos no Caminho de Ferro da Empreza se fazem gratis e respectivamente em 15 e 40 minutos. Também ha Corte do Pinto, a cuja freguezia a Mina pertence e que dela dista apenas 4 quilometros, é logar para onde muitas vezes se debanda. Enfim, lia muitos outros povos visinhos aonde a rapaziada alegre repetidas vezes faz as suas excursões.

Se passar pela Mina na ocasião do S. João, verá alegria por todos os lados: cantes, bailes, fogueiras, musicas, etc. E já que lhe falei do S. João sempre lhe quero dizer uma quadra interessante que lá se canta muito e que é a seguinte:

Ó Mina de S. Domingos
Retiro dos Passarinhos
Tão desviado qu'eu ando
Meu Amor dos teus carinhos...

esta outra também não menos original, que os mineenses cantam quando saem para os arredores:

Ó Mina de S, Domingos
Não é de ti qu'eu me lembro
E' de quem 'stá dentro dela
Qu`os meus olhos não 'stão vendo...

--E' interessante! Ora diga-me: E não há também para lá uma Serra qualquer para ser dividida pelo povo da parte de Cambas ou não sei que que ha tempos eu me parece ter visto nos jornaes ?

Ah! Meu amigo, lá poz vossé, sem o julgar, ponto final neste assunto; há lá, há, uma Serra enorme para ser dividida, divisão que já podia estar feita há bastante tempo e que podia ser a riqueza e a felicidade de toda aquéla gente, mas eles meteram nisso a politica e teem levado só a fazerem e a desfazerem; são os velhos, sabe, porque os novos poucos são os que querem saber de politica e fazem eles muito bem! Esse caminho tenho eu seguido. Eram 9 horas menos quarto; fomos para o Teatro.
Meia noite. Eis-nos na rua á procura de carro, já com a "Rigoletto,, de S. Carlos desempenhada na nossa presentsça. O meu amigo ia para Santo Amaro, eu para a Praça do Rio de Janeiro.

-Então boa noite! Adeus meu Amigo, Olhe desculpe-me se notou optimismo demasiado e por vezes ironia nas minhas afirmações a respeito da Mina, mas eu não posso permitir que na minha presença se façam juízos erróneos a respeito da terra onde até hoje tenho passado horas das mais felizes de toda a minha existência.
E faz muito bem se é que a Mina é isso que diz e como eu agora acredito. Até amanha. O meu amigo X retirou-se compenetrado da sinceridade das minhas palavras e eu radiante por ver que ele tinha ficado convencido de que a Mina de S. Domingos é... aquilo que é nada mais!
Março de 1924.

F. A. SANTANA.