João Gonçalves Carrasco

Data de Nascimento: 
1903-11-18
Local do Registo: 
Santana de Cambas
Distrito / Pais (se for estrangeiro): 
Beja
Concelho: 
Mértola
Freguesia: 
Santana de Cambas
Estado Civil: 
Casado
Nome do Cônjuge: 

Maria Julia Valente

Filhos: 

Antonio Valente Carrasco ( Faleceu com 9 anos )

João Valente Carrasco

Maria Julia Valente Carrasco

Antonio Valente Carrasco

Residência - Localidade: 
Santana de Cambas
Data de Falecimento: 
2006-01-24
Local de Falecimento: 
Santana de Cambas
Local da Sepultura: 
Cemiterio de Santana de Cambas
Informação Pessoal: 

Biografia

Observações: 
Foi um reconhecido anti-situacionista e opositor do Estado Novo tendo sido descerrada uma placa na casa onde viveu em Santana de Cambas evocando a sua figura.
Assento de Nascimento: 
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Profissão / Categoria: 
Comerciante
Local de Trabalho: 
Santana de Cambas
Notas adicionais: 

Em Julho de 2003, perante a oportunidade de entrevistar o senhor João Carrasco, hoje centenário, na sua casa em Santana de Cambas, registaram-se estas palavras, em forma de entrevista:
JC- "Era uma vida de miséria quase total. Aqui era a agricultura e era a mina de S. Domingos que ocupava toda esta gente, que mourejava aí ao rigor do campo. E o contrabando - afinal de contas era uma das bases em que se vivia aqui.
A região foi sempre agreste e muito desprotegida. Era uma zona muito habitada. Os chefes de família que trabalhavam no campo ou na mina viviam de um salário exiguo, que mal lhes dava para comer. Viviam com dificuldades, pois. Muitas vezes quem suportava toda esta crise era o pequeno comércio."
O senhor fol comerciante (mercearia, bebidas) durante quase cinco décadas (46 anos). E aí o senhor apercebia-se das dificuldades que as pessoas tinham...
JC- "Pois, além de toda a miséria que grassava aqui com abundância, eu fui sempre um defensor dos que viviam mal e dos que viviam na miséria, por conseguinte pois eu dispensei-lhes todo o meu auxílio, que pude."
- Não tinha problemas em relação ao próprio regime por demonstrar essa sensibilidade?
JC- "Ful multado algumas sete vezes pela Guarda Republicana... e isto porquê? Porque favorecia os mais desfavorecidos, porque estava sempre ao lado deles, defendia-os. E para mim era uma causa que eu julgava de todo defender para minimizar a miséria que grassava aqui na região."
-Lembra-se da Guerra Civil espanhola? Sei que ajudou pessoas do outro lado da fronteira...
JC- "Os alentejanos não conhecem o que se passou na fronteira, no tempo da Guerra Civil espanhola. Fol uma miséria constante e os que vinham de lá famintos aqui à procura de uma migalha de pão e eu aqui recolhi muitos foragidos de além que eram contra o Francisco Franco. Havia aqui um palheiro, uma habitaçãozinha qualquer, que era da minha sogra, e eu arranjei-lhes all cama e tudo e dava-lhes de comer, e muitas vezes ali os servia..."
- Se voltasse atrás, se vivesse outra vez, como reagiria?
JC- "Seria sempre a mesma pessoa! Confirmo tudo quanto fiz e quanto disse e sinto-me feliz por ter ajudado os que precisavam. Pois está claro!"
Maria Júlia Raposo, filha deste ilustre alentejano e viúva de um antigo presidente da Junta de Freguesia de Santana de Cambas, conta, a propósito da fraternidade internacionalista do pai, um episódio tocante:
"Um guarda-fiscal, que era uma pessoa muito bem formada, muitas vezes eu ouvi ele dizer para o meu pai: João, tu qualquer dia és escudilhado, porque os gajos vão-te à biqueira e lixam-te a ti e vão sofrer os teus. E o meu pai defendia-se: Então, mas as pessoas vêm e eu não vou negar--lhes abrigo, não vou fechar-lhes a porta, não vou mandá-los para trás. Porque eu, se vivesse na situação deles, também gostava que me acolhessem.. Entrevista ao sr. João Carrasco em 19-8-2003."(Memórias do contrabando em Santana de Cambas : um contributo para o seu estudo / Luís Filipe Maçarico ; pref. Miguel Rego)