
GREVE NA MINA DE SÃO DOMINGOS-1932
GOVERNO CIVIL DO DISTRITO DE BEJA
BEJA, 12 de Outubro de 1932
Exmo. Sr. Ministro do Interior
Nº 260
Tenho a subida honra de, para conhecimento de Vexa, transcrever o telegrama que acaba de dirigir-me a administração do Concelho de Mértola, deste Distrito:
“Acabo receber comunicação telegráfica pessoal trabalhador e operário Mina de São Domingos, pediu Melhoria situação não lhe foi concedida paralisando todos trabalhos há sossego rogo Vexa. se digne ordenar imediato reforço posto guarda republicana Mina de São Domingos".
Informo V.exa. que o reforço daquele posto acaba de ser pedido ao Comandante de Companhia do Batalhão nº3 da Guarda Nacional Republicana, com sede nesta cidade.
Saúde e Fraternidade
Servindo de Governador Civil,
O oficial
José Militão
Nº 2355
Para conhecimento de Sua Exa o Ministro, a seguir transcrevo a nota nº 1269/E de 14 do corrente, do Batalhão nº 3 desta Guarda com sede em Évora, que é do teor seguinte:
"Informo V.exa. de que pelo Exmo. Governador Civil de Beja me foi comunicado que os operários da Mina de S. Domingos, concelho de Mértola, em número de cerca de 2.000, se encontram em greve, tendo pretendido impedir a carga de vapores em Pomarão, pelo que a mesma autoridade solicitava o envio de forças desta Guarda para aquelas localidades. Imediatamente ordenei que o posto da Mina de S. Domingos fosse reforçado por pessoal da Companhia de Beja, estando atualmente ali um oficial, um sargento e 32 cabos e soldados e, por ser inconveniente desfalcar mais os postos da 2ª companhia, enviou a 5ª companhia um oficial, um sargento s 31 cabos e soldados para Pomarão, a fim de ser garantida a liberdade de trabalho. Estas forças têm instruções para proceder com a maior energia na repressão de qualquer alteração da ordem pública. Segundo as últimas informações há sossego, não obstante ser suspeita a atitude dos grevistas".
SAUDE E FRATERNIDADE.
Comando Geral em Lisboa, 15 de Outubro de 1932.
Exmo. Sr. Chefe do Gabinete do Ministério do Interior.
LISBOA
O Comandante Geral,
Augusto Manuel Farinha Beirão
General
CONFIDENCIAL
Nº 64
Em aditamento ao meu ofício nº 2355 de 15 do corrente e para conhecimento de Sua Exa o Ministro, transcrevo a nota confidencial nº 114 de 18 também do corrente, do comandante do Batalhão nº 3 desta Guarda, com sede em Évora:
"Em referência ao assunto da minha nota nº 1269 do 14 do corrente, cumpre-me informar, que este comando está constantemente ao facto da ação dos grevistas das Minas de S. Domingos, continuando a greve, mas sem que tenham alterado a ordem, para o que os comandantes das forças existentes nas Minas e Pomarão têm deste comando as ordens mais terminantes no caso de alteração ou qualquer gesto que prejudique trabalho ou embarque nesta última localidade. Comuniquei hoje o exposto por V.exa. pelo telefone. Aproveito a ocasião para dizer, que é a 2ª companhia a única que não possui telefone, o que prejudica bastante as ordens rápidas, o que não acontece para as outras, tendo-se verificado agora como seja aparecer rapidamente a força em Pomarão evitando a ação dos grevistas, porque o Governador Civil de Beja tendo o seu gabinete no mesmo edifício do quartel, chamou ο comandante da companhia a meu pedido. Vou, pois, solicitar autorização para a instalação. Com respeito à ação dos grevistas, responsabilizo-me por ela no que diz respeito à ordem, que a terminação dela não é da minha competência porque se fosse também acabava."
SAUDE E FRATERNIDADE.
Comando Geral em Lisboa, 19 de Outubro de 1932.
Exmo. Sr. Chefe do Gabinete do Ministério do Interior.
LISBOA
O Comandante Geral,
Augusto Manuel Farinha Beirão
General
Nº 65
Para conhecimento de Sua Exa o Ministro, transcrevo ee-guidamente o relatório do Sr. comandante do Batalhão nº 3 desta Guarda, com sede em Évora, acerca da atual situação da greve da Mina de S.Domingos
"Até agora apresenta-se a greve disciplinada e sem provocação, tendo de principio os grevistas pensado em impedir a saída do minério em Pomarão. Obedecem disciplinadamente a dirigentes, que se supõe estarem em Espanha; recebendo subsídio deste País e Porto (segundo informação prestada pelo Governador Civil de Beja). Melhor teria sido logo de principio a autoridade administrativa conseguir a detenção dos dirigentes, mais a mais conhecidos. Quando se lembraram de o fazer, já eles se tinham retirado.-Estado atual-Houve uma conferência da direcção das Minas, ingleses, com os Ministros do Comércio e Interior, não desejando estes, que sejam atendidas as reclamações dos mineiros, entendendo (e não devem estar longe da verdade) que a greve foi instigada por elementos espanhóis, e nestes termos foram dadas instruções à autoridade administrativa para afixar editais impondo a volta ao trabalho dentro de 24 horas ou saída do pessoal com o respetivo despedimento.0 industrial Alfredo da Silva vai mandar um navio carregado de adubos, para serem descarregados em Vila Real, subindo depois o rio e vir carregar o minério ao Pomarão. Este navio traz já carregadores, e se os grevistas de Pomarão não quiserem fazer o carregamento serão despedidos e obrigados a sair da localidade; para isto terá de intervir a força, e como presumivelmente os grevistas das Minas de S. Domingos procurarão ir ao Pomarão auxiliar os seus companheiros, impedindo os carregadores do Alfredo da Silva de efetuarem o carregamento do minério, tornar-se-á necessário que a força que está nas Minas impeça a passagem aos grevistas de uma para outra parte. Para nos dar tempo a reunir a força disponível e indispensável, alcançou-se que o citado edital só fosse afixado no domingo e o carregamento do minério se efetuasse na segunda-feira.
Disposição de forças- No Pomarão: oficial, um; sargento,um; cabos e soldados, 40.-Manterão a liberdade de trabalho aos carregadores do Alfredo da Silva e fazer retirar os carregadores da Empresa das Minas, caso não queiram trabalhar. Nas Minas de S. Domingos: capitão, um; tenentes, 3; sargentos, cabos e soldados, 110, com o fim de evitar distúrbios, reuniões, passagens para Espanha, e impedir que os mineiros grevistas marchem sobre Pomarão. Como já disse, a greve está muito bem organizada, e o pessoal obedece cegamente à Direção do Sindicato. Esta desapareceu (presume-se em Espanha) de onde envia as suas ordens e diretivas. Quando a autoridade administrativa foi a sede para encerrar e apreender documentos, encontrou só as paredes e o telhado. Até as portas e janelas tinham sido retiradas. Esta autoridade ainda quis avistar-se com delegados dos grevistas, mas recebeu como resposta: "que estando ausente a Direção do Sindicato, só se poderia entender com todos os quais reuniriam no local e hora marcada por aquela autoridade. Nestes termos negou-se a ouvi-los.
Num ofício recebido pelo Governo Civil, ontem, ao Presidente da Direção já são feitas ameaças, como réplica a um boato de que a Empresa ia chamar às Minas determinado diretor de trabalho. Diz mais o citado ofício, que se a Empresa envereda por esse caminho (procurar forma para que a força exerça ação repressiva violenta) eles perderão o pão e irão engrossar o número de desempregados, mas que a Empresa deixará de possuir a Mina. Que pensam fazer? Não se sabe. As Minas têm uma população de 4 a 5.000 pessoas (família de 2.000 operários). 0 Governador Civil pretende decretar o estado de sítio dentro da região, com o fim de evitar que os operários se reúnam nos largos ou campo, forçando-os a recolher a suas casas à hora do recolher e impedir que comuniquem com Espanha." Junto um manifesto, que acompanhou o aludido relatório.
SAUDE E FRATERNIDADE.
Comando Geral em Lisboa, 21 de Outubro de 1932.
Exmo. Sr. Chefe do Gabinete do Ministério do Interior.
LISBOA
LISBOA
O Comandante Geral,
Augusto Manuel Farinha Beirão
General
MINEIROS EM PÉ
Altiva e serenamente encaremos todos os, obstáculos !
Não nos fiemos nas armadilhas que a Empresa projeta pôr em pratica. para nos coagir, para nos vencer !,
MULHERES COMPANHEIRAS. - A fome, a miséria nunca nos foram estranhas, mas neste momento é a morte que se aproxima !
Pois bem: ANTES MORRER de fome do que rendermo-nos a um inimigo tão desumano !
CAMARADAS, COMPANHEIROS : Olhai bem o que é a crise da Empresa, e como ela se está portando!
-Só para nós nem um vintém mais!
-Nós diremos : só para voltar-mos à Mina com a satisfação dos seis pontos por nós defendidos,
NEM UM PONTO A MENOS! De contrário esta mina não mais voltará a ser mina e nós teremos a sorte dos 25 milhões de desempregados que vagueiam pelo mundo. Jamais esqueceremos a afronta que nos está sendo feita e temos a consciência serena das nossas responsabilidades a qual manteremos pelo tempo que for necessário.
Confiemos na Solidariedade entre os trabalhadores o qual já está em atividade recusando os mineiros de outras minas, carregar os barcos fretados pela de S. Domingos.
-Os camponeses também não virão atraiçoar-nos nem os operários doutras localidades.
PPESOS, FAMINTOS, MAS NÃO VENCIDOS
Viva a Solidariedade Internacional
Escrito por nós, firmado por nós Mineiros de S. Domingos
Nº67 CONFIDENCIAL
Para serem presentes a Sua Exa o Ministro, Junto envio a V.exas. dois documentos apreendidos nas Minas de S. Domingos.
Aproveito a ocasião para informar, que a situação dos grevistas se mantem tal como consta do relatório transcrito no meu oficio confidencial nº 65 de ontem, havendo completo sossego.
SAUDE E FRATERNIDADE.
Comando Geral em Lisboa, 22 de Outubro de 1932.
Exmo. Sr. Chefe do Gabinete do Ministério do Interior.
LISBOA
Pelo Comandante Geral,
António Emílio Cortes
Coronel
CONFIDENCIAL N. 70
Para conhecimento de Sua Ex o Ministro, transcrevo a nota confidencial nº 120 de 27 do corrente, do Batalhão no 3 desta Guarda, com sede em Évora:
"Comunico a V.Ex.ª que, segundo informa o Sr. comandante da 2ª companhia deste Batalhão, a greve da Mina de S. Domingos continua sem que tenha havido qualquer alteração da ordem. Foram afixados convites da Empresa para que os operários retomassem o trabalho até às 8 horas de 24 do corrente, e ao mesmo tempo foram afixados editais do Governo Civil de Beja garantindo a liberdade de trabalho. Na Mina de S. Domingos ninguém retomou o trabalho. No Pomarão apenas se apresentaram ao serviço 7 carregadores que, juntamente com carregadores da C.U.F.. procederam à carga de um vapor, estando agora outro vapor a carregar. Os subsídios de 7$00 diários, que os grevistas recebiam, foram diminuídos para 5$00 e depois para 4$00, sendo, pois, de prever, que a greve não possa manter-se muito mais tempo. O Exmo. Governador Civil de Beja esteve ontem nas Minas e em Pomarão para estudar a situação e as medidas a tomar".
SAUDE E FRATERNIDADE.
Comando Geral em Lisboa, 28 de Outubro de 1952.
Exmo. Sr. Chefe do Gabinete do Ministério do Interior.
LISBOA
O Comandante Geral,
Augusto Manuel Farinha Beirão General
CÓPIA TELEGRAMA Pomarão (Beja), 27 de Outubro de 1932.-17h----
Exmo. Ministro Interior Lisboa
Serviço embarque minério restabelecido Pomarão ponto Serviço Caminho Ferro restabelecido ponto Todos capatazes retomaram serviço ponto Restantes pessoal continuar paralisado ponto Fazem-se constantes diligências prisão agitadores ponto Capturados sete e a monte vários ponto Exceto individuo identificado que ontem insultou pessoal tração comboio Mina e pequeno grupo que hoje à distancia insultou pessoal trabalhador carga vagonetes próximo Mina e não capturado apesar de perseguido tiro ordem absoluta ponto Proibido transito durante a noite e mendicidade a que nos arredores se entregam já muitos mineiros sem recursos. Governador Civil substituto, Neves Graça.
COPIA TELEGRAMA Beja, 29 de Outubro de 1932. 15h 20m
Exmo. Ministro Interior Lisboa
Comunico V. Ex. continua normalmente transporte minério para Pomarão e seu embarque ponto Este pessoal excepto dois homens ao serviço ponto ontem apresentados primeiros sete mineiros e trinta operários oficinas ponto Absoluto sossego.
Governador Civil substituto, Neves Graça
CÓPIA TELEGRAMA Beja, 1 de Novembro de 1932. -17h 45m-------
Exma. Ministro Interior Lisboa
Comunico V. Exa, até ontem havia serviço Mina S. Domingos além dos capatazes 134 operários oficinas 14 serviços gerais 22 mineiros e todo pessoal do Pomarão ponto Hoje apresentaram-se mais 22 mineiros. Governador Civil substituto, Neves Graça
Comando Geral
Exmo. Senhor
Confidencial nº76
Em aditamento ao meu ofício confidencial nº 77 de ontem, cumpre-me comunicar a V. Ex para conhecimento de Sua Exa o Ministro, que segundo telegrama hoje recebido do Comandante do Batalhão nº 3 desta Guarda, corre tudo normalmente nas Minas de S. Domingos, continuando a haver sossego.
SAUDE E FRATERNIDADE.
Quartel no Carmo em Lisboa, 19 de Novembro de 1932.
Exmo. Senhor Chefe do Gabinete do Ministério do Interior.
LISBOA
O COMANDANTE GERAL,
Augusto Manuel Farinha Beirão.
General.
SINDICATO DOS OPERARIOS DA INDÚSTRIA MINEIRA DE S. DOMINGOS.
PROPOSTA APROVADA POR UNANIMIDADE EM REUNIÃO MAGNA DOS OPERARIOS DA INDUSTRIA MINEIRA DE SÃO DOMINGOS:
Fara solução do conflito suscitado pela empresa da Mina que negou pela boca dos seus representantes um aumento de salario, motivando o abandono do trabalho, resolução esta iniciada pelo pessoal de dois turnos da contramina, pessoal metalúrgico e depois acompanhada por toda a classe, proponho que, por agora, a classe aceite os seguintes pontos:
1º Um aumento de salário de 4$00 diários a todo o pessoal operário;
2º Fixação definitiva, enquanto durar a crise mundial, dos dias de trabalho em 22 por mês;
3º Readmissão dos operários despedidos desde Junho do corrente ano;
4º Que sejam mantidas todas as garantias que independentemente dos salários nós auferimos ao serviço da Mina;
5º Garantia firmada pela empresa e pelas autoridades de que não serão exercidas quaisquer represálias, vinganças ou perseguições contra quaisquer operários que em legitima e humana defesa dos seus interesses se recusaram trabalhar nos dias que vão decorridos após a paralisação do dia 12;
6º Pagamentos dos dias perdidos pelo pessoal assalariado, por motivo do presente conflito.
Mina de S. Domingos em 13 de Outubro de 1932.
Exmo. Senhor,
Em aditamento ao ofício deste Comando nº 70 (confidencial) de 28 do mês findo, para conhecimento de Sua Exa o Ministro, transcrevo seguidamente a nota confidencial nº 125 de 4 do corrente, do Batalhão nº 3 desta Guarda, com sede em Évora:
"Em aditamento à minha nota confidencial nº 120 de 27 do mês findo, informo V. Exa de que até hoje fizeram a sua apresentação 336 grevistas, dos quais são 67 mineiros e 269 de serviços diversos. Mais comunico a V. Exa que ontem um numeroso grupo de mulheres tentou impedir o trabalho nas Minas de S. Domingos, tendo dispersado depois de serem distribuídas algumas espadeiradas e coronhadas."
SAUDE E FRATERNIDADE.
Comando Geral em Lisboa, 2 de Novembro de 1932.
Exmo. Sr. Chefe do Gabinete do Ministério do Interior.
LISBOA
O Comandante Geral,
Augusto Manuel Farinha Beirão
General
Cópia da cópia-Guarda Nacional Republicana-Batalhão nº 3-Secretaria-Guarda Nacional Republicana-Batalhão nº 3-2 Companhia-Diligência na Mina de S. Domingos
-Relatório- No dia 12 de Outubro findo foi declarada greve pelos operários da Mina de S. Domingos. A requisição do Governo Civil de Beja e por ordem do comando do Batalhão, foi esta localidade sucessivamente reforçada com pessoal das 2ª,3ª e 5ª Companhias, na totalidade de 1 capitão, 4 subalternos, 3 sargentos, 1 ferrador e 158 cabos e soldados; há também a contar, em animal: 19 cavalos, e além do material normal, 3 metralhadoras. A atitude do pessoal grevista manteve-se irredutível por muitos dias, tornando-se notável e perigosa a disciplina observada nestes dois mil homens. Tentou, contudo, obter vantagens, que se resumiam no aumento de 3 ou 4$00 por dia e por homem e na manutenção integral do pessoal mineiro, por lhes constar que iam reduzir dias de trabalho ou despedir operários. Nada os grevistas conseguiram por virtude da Empresa da Mina ter dificuldade em colocar o mineral nos mercados habituais. Em tais condições, a greve favorecia a situação da Empresa. Aos grevistas foram distribuídas senhas de variáveis importâncias, que não iam alem de 7$00 diários por cada um. Com estas senhas adquiriam os grevistas géneros no comércio local. Este dinheiro provém em parte do Sindicato Mineiro local. A outra parte supõe-se ter vindo de outros sindicatos congéneres e, diz-se, da Espanha. Este abono, que tem ido desaparecendo, ou já desapareceu, deu aos grevistas alentos para uma resistência que já está quebrada. O Sr. Governador Civil de Beja esteve nesta localidade em 26 do referido mês de Outubro, para estudar a situação, ordenando, em 27, algumas prisões de dirigentes e proibindo o trânsito depois das 20 horas. Em 23, junto com o edital do Governo Civil, que proibia o trânsito, publicou a Empresa um convite para os operários retomarem o trabalho dentro de 24 horas, com todas as garantias anteriores, não tendo sido aceite o convite. Como última cartada, lançaram as mulheres, em massa, contra alguns operários que haviam "furado" a greve, na intenção de impedirem o trabalho. Teve de intervir a força, restabelecendo a ordem. De há poucos dias, começaram as apresentações dos grevistas. Parece que a situação caminhava rapidamente para a normalidade. Porem, no último domingo, dia 6 reuniu um grupo de cerca de 300 operários que resolveu continuar a greve; refletindo-se esta atitude nalguns operários já apresentados, que, no dia imediato, por medo ou solidariedade, abandonaram de novo o trabalho.-Todavia têm voltado lentamente, faltando apresentar-se justamente um grupo de 300 que deve ser o mesmo grupo que reuniu no domingo citado. A Empresa, pelas dificuldades de colocação do mineral, vai deixar muitos mineiros sem trabalho, que pode ascender aquele número de 300, Receia ela, que logo que estes sejam declarados definitivamente despedidos, arrastem novamente os seus camaradas para a greve ou pratiquem atos de sabotagem, sobretudo na linha férrea, notando-se uma atmosfera de desconfiança. Pelo exposto, sou de parecer, que a força do Pomarão continue a vigiar os túneis e parte da linha. E que a força concentrada na Mina continue a ocupar os mesmos postos que absorvem metade do seu efetivo. E como a situação deve ser esclarecida dentro de 3 ou 4 dias, na devida altura proporei a retirada total da força ou por frações.
Quartel na Mina de S. Domingos, 10 de Novembro de 1932.
0 Comandante da diligência (a) José Pedro de Matos, capitão-Está conforme-Comando do Batalhão em Évora, 11 de Novembro de 1932-Pelo Chefe da Secretaria (a) José Rodrigues Aguincha Júnior, tenente
Está conforme
Comando Geral em Lisboa, 12 de Novembro de 1952.
O Chefe da Repartição
Gastão da Silva Teixeira
Tenente Coronel
Cópia da cópia-Guarda Nacional Republicana-Batalhão no 3-Secretaria-Serviço da República-G.N.R.-Batalhão 3-Diligência na Mina de S. Domingos. No 32-Confidencial-Mina de S. Domingos, 15 de Novembro de 1932.Ao Ex Sr. Comandante do Batalhão-Évora-Confirmando o meu telegrama no 31 de hoje, informo V. Exa do seguinte: Ontem cerca das 20430, marchava um comboio da Mina carregado de mineral para os lados de Pomarão, tendo saído de Santana de Cambas. Antes da estação de Salgueiros (a meia distância aproximadamente de Santana e Pomarão) sentiu-se uma detonação. No meu telegrama de hoje disse que o comboio havia recuado após a explosão; mas, tendo feito um inquérito mais demorado, averiguei que o comboio avançou até Salgueiros. Este comboio, ou antes, a máquina com uma série de novas vagonetas descarregadas, deveria em seguida recolher à Mina, ou seja, uma marcha em sentido contrário à que levava quando se deu a explosão. O maquinista, tomado de pânico, afirma que ouviu um firo e depois a explosão. O tiro não se confirma, devendo haver confusão com o tardo que explodiu. Fui informado pelo telefone de que o maquinista se recusava a regressar com o comboio à Mina. Ordenei então para o Pomarão que seguisse dali um graduado com algumas praças numa máquina de reserva para obrigar o maquinista a seguir para a Mina e, ao mesmo tempo, escoltar o comboio.0 Sr. tenente Costa, comandante da força ali destacada, ofereceu-se para ir pessoalmente dirigir este serviço. Chegado ao comboio e posto este em marcha, ao chegar ao ponto onde explodiu o petarde, descarrilou a máquina de vido a ter-se quebrado o carril com a explosão, carrilou-se a máquina com grande dificuldade, após o que o comboio continuou a marcha. Já próximo da estação da Achada, a 3 ou 4 quilómetros da Mina, explodiu novo petardo, que quási tombou a máquina. O maquinista cheio de medo e julgando-se ferido, queria abandonar o comboio, tendo sido difícil ao tenente Costa obrigá-lo a retomar a marcha, sendo necessário recorrer à ameaça depois de verificar que não havia ferimentos. Este carril também ficou partido. Não houve desastres pessoais nem outros prejuízos materiais, alem dos carris partidos e algumas travessas levantadas. Este pequeno atentado não me surpreendeu, porque no meu telegrama nº 22 de 10 do corrente, já eu contava com um possível protesto que se traduziu em atentado contra o comboio. Parece, porem, que о саsо não obedece a qualquer plano concebido; e tratando-se duma ação isolada, a sua importância é insignificante. A segunda explosão deu-se as 23h30 tudo indica que os petardos foram colocados já de noite, visto que um pouco antes de anoitecer passou por toda a linha um comboio sem novidade. A partir de hoje, passam os comboios a marchar de dia, suprimindo-se os da noite. A Empresa tem irritado um pouco a situação, porque reduziu o número de operários e porque, tendo muitos operários inscritos já há bastantes dias, não os tem chamado ao serviço, com a agravante de não lhes dar vencimentos enquanto os não mandar apresentar para serviço. E não leva mais longe os seus propósitos de represália, devido à ação do Sr. Administrador do Concelho de Mértola, que se tem conservado sempre aqui junto da força, ordenando a tempo as providências que competem à sua autoridade. A não ser esta ocorrência, nada mais há a registar, continuando a haver sossego.
О Соmandante da diligência (a) José Pedro de Matos, capitão-Está conforme-Comando do Batalhão em Évora, 16 de Novembro de 1932.-
0 Chefe da Secretaria, (a) Inácio Monteiro de Azevedo, capitão. -Está conforme--
Comando Geral em Lisboa, 18 de Novembro de 1922.
O Chefe da Repartição, Gastão da Silva Teixeira Ten.Coronel
SERVIÇO DA REPUBLICA
Guarda Nacional Republicana
Comando Geral
Repartição Central
Exmo. Sr.
Para ser presente a Sua Exa o Ministro, junto envio a V. Exa cópia da cópia de um relatório do comandante da diligência na Mina de S. Domingos, cumprindo-me informar, que segundo comunicação do comando do Batalhão nº 3 desta Guarda, a situação ali tende a normalizar-se, porque, não obstante a Empresa estar resolvida a reduzir o pessoal obreiro, o Administrador do Concelho de Mértola garantiu o trabalho a todo o pessoal que for despedido, utilizando-o na reparação de estradas e caminhos, a executar dentro do mesmo concelho.
Devo ainda informar V. Exa de que, segundo comunicação daquele comando, recolheu em 16 do corrente nos postos a que pertence, a maioria do pessoal em diligência, tendo ficado no Pomarão, um furriel e 16 praças e nas Minas de S. Domingos, um subalterno, 40 praças de infantaria e cavalaria, e uma metralhadora ligeira.
SAUDE E FRATERNIDADE,
Comando Geral em Lisboa, 18 de Novembro de 1952.
Exmo. Sr. Chefe do Gabinete do Ministério do Interior.
LISBOA
O Comandante Geral,
Augusto Manuel Farinha Beirão, General
Beja 22 de Novembro de 1932
Exmo. Senhor ministro do Interior
Há bastantes dias já, que se pode considerar terminada a greve da Mina de São Domingos, pois as inscrições de operários para retomarem o trabalho. lentas nos últimos dias do mês passado, aceleraram-se neste mês, com uma rapidez muito superior a de admissão por parte da Empresa, que teve de, gradualmente, fazer a limpeza dos gazes que tornavam inabitável a contramina.
Por este último motivo, no dia 12 do corrente mês, havendo inscritos mais de 1.800 operários, só estavam a trabalhar pouco mais de mil e hoje encontram-se a trabalhar 1.569, estando inscritos mais 369.
Em Setembro deste ano trabalhavam na Mina 1880 operários. O número de inscritos, somado ao número dos que já estão trabalhando, atinge 1938, superior, portanto, ao dos que havia em Setembro.
Em 12 do corrente mês, quando só havia 1.000 homens a trabalhar, oficiei ao gerente da Empresa dizendo ser de toda a conveniência a admissão rápida dos operários inscritos, excetuando os agitadores, por então me ter constado que a gerência pretendia, aproveitando a greve, reduzir o quadro de seu pessoal.
Noticias hoje recebidas do Sr., Administrador de Concelho de Mértola, confirmam as minhas suspeitas de então, pois comunica-me que a Empresa só admite, presentemente, mais operários, depois de a tal ser autorizada pelo Diretor que reside em Londres e a quem consultou sobre este assunto, apos, segundo consta à mesma autoridade, ter recebido o meu ofício.
É o que acabo de referir, e que se me oferece comunicar a V.exa., acerca da posição atual da Empresa perante os seus operários, que, como não podia deixar de ser, têm retomado o trabalho nas condições anteriores á greve.
Alem dos ligeiros incidentes que, telegráfica e oportunamente, tive a honra de comunicar a V.exa. no dia 13 deste mês foi praticado um ato de "sabotage", felizmente sem consequências, no caminho de ferro privativo da Empresa, próximo da estação de S. Domingos. Estava, já há dias restabelecido o serviço noturno de comboios, quando, nessa noite, foram colocados na via dois pequenos petardos que explodindo, pela meia noite, a passagem dum comboio, unicamente quebraram os carris.
Ordenei que se averiguasse dos seus autores e está já nesta cidade um agitador, preso por suspeita, estando esperançado em que tudo se saiba.
Anteontem à noite também explodiu um outro petardo dentro da fornalha duma caldeira da central elétrica, sem causar prejuízo de qualquer espécie. Estava no carvão, onde deve ter sido colocado nos primeiros dias da greve, porque o serviço da central foi dos primeiros que se restabeleceram e normalizaram.
Dos indivíduos aqui detidos, uns com maiores responsabilidades na greve, outros com menores, tenciono, se V.exa., me não ordenar o contrário, soltar dentro de pouco tempo, os que no conflito foram figuras de insignificante relevo e propor a fixação de residência, em pontos afastados da Mina, aos que, embora figuras secundarias, no movimento tiveram uma maior intervenção, Acresce até, para estes últimos, que alguns são de terras bem afastadas, estando na Mina há, relativamente, pouco tempo.
Os principais organizadores e dirigentes da greve continuam homiziados em Espanha, tão próximo da fronteira, que por vezes são vistos pela nossa Guarda, tanto fiscal como republicana.
Em consequência da situação se poder considerar normalizada, retiraram já de S. Domingos e maior parte das forças ali destacadas, por ordem direta do Comando do Batalhão da G. N. R. de Évora. Presentemente estão: Em S. Domingos, 40 homens sob o comando de um oficial e no Pomarão, 16 homens, sob o comando de um furriel.
Como os dirigentes de movimento, embora em Espanha, estio a pouco mais de dois quilometres de S. Domingos, receio que, diminuindo-se o efetivo atual das forças ali destacadas, as ordens que de la possam dar aos operários, não sendo contrabalançados pela vigilância e, até, pela ação de presença daqueles dois núcleos de força, os levem a tomar qualquer nova atitude, sobretudo porque não só é muito recente o fim da greve, e, ainda que oculta, grande a má vontade contra a empresa, mas também porque os operários ainda não admitidos ao trabalho, na suspeita de que o não serão tão depressa, estão, certamente, prontos a obedecer-lhes.
Estas razões levam-me a solicitar a esclarecida atenção do Vexa para a necessidade, que se me afigura existir, de serem conservados, durante algum tempo ainda, os atuais destacamentos da G. N. R. em S. Domingos e no Pomarão.
Aguardando as ordens que Vexa, entender dar-me sobre estes assuntos, desejo a V.exa., Sr. Ministro, com os mais elevados protestos de consideração
Saúde e Fraternidade.
Governo Civil de Beja, aos 22 de Novembro de 1932.
O Governador Civil Substituto, (António Neves Graça)
Exmo. Senhor
Em resposta ao ofício dessa Federação, de 13 do corrente, encarrega-me Sua Ex. o Senhor Ministro do Interior de comunicar que já foram dadas ordens ao Exmo. Senhor Governador Civil de Beja para tratar de readmissão dos operários despedidos cujo procedimento seja bom.
Quanto aos presos, os que se mostrarem com culpas, serão julgados nos tribunais competentes, e os outros irão em liberdade.
saúde a Fraternidade
Ao Exmo. Senhor Presidente da Comissão Administrativa da Federação Nacional dos Operários da Indústria da Construção Civil de Portugal e Colonias.
Lisboa, 14 de Dezembro de 1932.
Pel'o CHEFE DO GABINETE
Mário de Campos Barbosa
Guarda Nacional Republicana-Batalhão nº 3-Secretaria-Serviço da República-Guarda Nacional Republicana-Batalhão 3—2ª Соmраnhia, No 204-Mina de S. Domingos, 13 de Dezembro de 1932.-Αο Exmo. Sr. Comandante do Batalhão-Évora-Informo V.Ex.ª, que tendo-me constado que na Mina de S. Domingos se tinham dado umas explosões, dirigi-me imediatamente para esta localidade, passando logo a inquerir da situação, pelo que percorri os lugares principais da Mina a avistei-me com alguns membros da Empresa, Verifiquei, que junto ao poço nº 6 num barracão que abriga as máquinas e engrenagens destinadas ao esgotamento de agua forte da contramina, existiam os vestígios de duas explosões, espaçadas de 5 minutos, que se deram em 11 do corrente, pelas 21h e poucos minutos. Foram destruídos um controle (muito semelhante aos dos carros elétricos de Lisboa) e um motor elétrico, que a Empresa avalia no total de 25.000000. Foi estilhaçada uma porta, foi deslocado o cunhal duma janela e partidos todos os vidros. Pela potência, parece tratar-se de bombas. Veio expressamente um agente te da Polícia Internacional, e espera-se ainda um outro para averiguações. Uma tempestade de chuva e trovões, que se sentiu aquela hora, facilitou o atentado e dificultou o êxito duma batida que o sargento do posto fez às imediações das explosões, logo que estas se ouviram. O gerente da Empresa pediu-me para que fossem guardados alguns pontos considerados importantes. Dando o balanço devido às necessidades do efetivo, conclui-se o seguinte: força existente do antecedente, um sargento, um cabo e 12 soldados de infantaria;24 soldados de cavalaria com as respetivas montadas. Chegou ontem o Sr. Tenente Borba da Silva, a chegaram hoje 10 soldados de infantaria. Efetivo necessário, 40 praças, pelo que proponho a vinda de mais 12 soldados de infantaria e um soldado de cavalaria com 2 cavalos, sendo um destes para o oficial comandante da força. -
0 Comandante da companhia (a) José Pedro de Matos, capitão-
Está conforme-Comando do Batalhão em Évora, 14 de Dezembro de 1982.-0 Chefe da Secretaria (a) Inácio Monteiro de Azevedo, capitão
Está conforme
Comando Geral em Lisboa, 16 de Dezembro de 1932.
O Chefe da Repartição, Gastão da Silva Teixeira Ten.Coronel
Guarda Nacional Republicana-Batalhão nº 3-Secretaria-Serviço da República-Governo Civil do Distrito de Beja-2ª Secção-nº 29-Ex Sr. Comandante do Batalhão 3 da G.N.R.-Évora-Solicita-me o Sr. Administrador de Mértola, que seja reforçado, urgentemente, o posto da Mina de S. Domingos, com 16 praças, a fim de serem convenientemente guardadas as instalações e propriedades da Empresa, pois foi cometido hoje um novo atentado com explosivos, no poço nº 6 da citada Mina, que, ao contrário dos cometidos no mês passado, sem consequências, destruiu os maquinismos do mencionado poço. Transmitindo a v.exa., com todo o interesse, o pedido do Sr. Administrador do Concelho, cumpre-me ainda informar V.Ex.ª de que o estado de espírito de mais de 300 operários, que ali se encontram sem trabalho, na sua quase totalidade em consequência de, apesar dos esforços empregados, a Empresa ter reduzido os seus quadros após a greve, é de molde a exigir que o posto de S. Domingos se mantenha reforçado durante algum tempo ainda, para, não só pela vigilância, mas também pela ação de presença, evitar que se cometam novos desacatos, certamente fomentados pelos dirigentes da última greve, homiziados em Espanha, mas muito próximos da fronteira, quase junto à Mina, pois esta está a 2 quilómetros do país vizinho. Nos últimos dias têm aparecido, com relativa frequência, manifestos clandestinos, talvez impressos em Espanha, aconselhando violências de toda a ordem, inclusive, atentados pessoais.
Governo Civil de Beja, aos 13 de Dezembro de 1932.-0 Governador Civil substituto (a) António Neves Graça.
Está conforme-Comando do Batalhão em Évora, 14 de Dezembro de 1932.-0 Chefe da Secretaria (a) Inácio Monteiro de Azevedo, capitão.
Comando Geral em Lisboa, 16 de Dezembro de 1932
O Chefe da Repartição,
Gastão da Silva Teixeira Ten.Coronel
Transcrição realizada por João Nunes/CEMSD
