Noticias da Mina 1865

Ano: 
1865
Autor: 
Jornal do Comércio
Descrição: 

Haverá 25 anos, quando em Portugal região os Cabraes; quando as revoltas, e as guerras civis estavam na ordem do dia: quando não havia ministerio de obras publicas, commercio e industria; quando o estado das minas e de sua exploração se achava, por assim dizer, Da infância: chegou aqui um Francês por nome M. Deligny, dotado de bastantes conhecimentos geológicos. Dirigiu-se ao Alentejo no intuito de passar a Espanha; e como se entretivesse em estudar o terreno do concelho de Mértola, só, e sem o auxílio de pessoa alguma, descobriu junto a S. Domingos Rico veio de cobre, susceptível de lucrativa exploração, por isso que os indícios do metal se prolongam por largo espaço.
Guardou-se bem o descobridor de jactar-se do achado. Regressou à capital, e tratou de requerer, em conformidade da lei, a propriedade da descoberta, e autorização para explorar a mina. Foi auxiliado por capitais estrangeiros, porque naquela época ninguém tinha  fé nas vantagens das minas, havendo a exploração da agiotagem mais segura, mais inteligível, menos morosa, rendendo de 20 a 30 % mensais no desconto de recibos de soldos, ordenados e pensões, assim como em empréstimos no thesouro em que entravam papéis comprados no mercado a 18 e 20%.
Deligny, depois de trazer de Inglaterra os aparelhos convenientes, começou os trabalhos, e no cabo de dois anos de tirocínio, começou a bruxulear lucros e vantagens que ao princípio ele próprio teria repelido como parte de imaginação escaldada. Percebeu que o minério era de incomparável abundância, e que poderia elevar a extração a quantidades enormes, dispondo do pessoal adequado.
Chamou operários de todos os pontos da província, e até de Espanha. Começaram a levantar se casas em S. Domingos, até então pavoroso ermo. A exportação do cobre pelo foz do Guadiana não  tardou em provocar a atenção do país. Apesar dos sacudimentos políticos. Convencido enfim de haver granjeado uma fortuna colossal Deligny sublocou a empresa ao Inglês Mason, e foi para Paris viver vida de príncipe. Mora num dos melhores palácios daquela cidade; possui carruagens, coupés, carros, muitos cavalos, enxame de criados, e ostenta um fasto de Lucullo, figurando em outras empresas, em que o seu nome é procurado como elemento de sucesso.
Ao inglês Mason deve a província do Alentejo o desenvolvimento de riqueza hoje ali dominante. S. Domingos converteu-se em villa de 3,000 almas e na margem do Guadiana criou-se a villa do Pomarão, frequentada por 80 ou 100 embarcações anualmente, as quais vão ali vender o minério destinado ao mercado britânico.
O que é a Mina de cobre de S. Domingos? É o maior depósito desse metal existente em toda a Europa. Os Espanhóis, que nos precederam de há muito nas lavras das minas, e que em Rio Tinto na Andaluzia pretende dispôr de grande riqueza no mencionado metal, não atingem sequer metade do resultado  colhido no concelho de Mértola Os empregados de minas que tem fiscalizado o terreno reconhecem que a existência daquele jazigo era conhecida dos Romanos. Encontrariam vestígios das imperfeitas explorações que então se faziam à superfície do solo. Surpreende o decurso de tantas séculos sem cogitação da riqueza que tínhamos em casa, ao passo que os nossos navegadores sulcavam remotos mares em demanda de novos territórios para juntar aos extensos domínios da coroa lusitana.
A folha oficial acaba de publicar alguns dados estatísticos sobre a exploração da mina em 1863 e 1864. Naqueles anos extraíram-se 107,580 toneladas inglesas; e neste 123,000. O número de operários e trabalhadores em 1861 foi de 837 homens, não falando em mulheres e crianças; e o de cavalgaduras 279. As despesas da lavra em 1863 foram de 129:353$  385, e em 1864 de 147:828$  958
O minério transportado para Inglaterra e ali vendido produziu, segundo as declarações do gerente da empresa, no ano de 1863 1,212:426$ 500, e no ano de 1864 1,386:200$  000.
O imposto proporcional para o estado, autorizado pela lei de 31 de Dezembro de 1852 e respectivos adicionais, foi relativamente ao ano de 1863 de 16:495$114, e ao ano de 1864 18.863$252. Os demais impostos a pagar, com direitos de exportação e outros montavam em 1864 a 18 772$120, o que junto ao imposto proporcional perfaz um total de 37 608$572.
Não é temeridade supor que, deduz se os fretes, seguros, comissões, etc, ficam mil contos de réis líquidos anualmente para os bolsos do concessionário e do arrendatário. O Estado, que apenas recebe uma insignificante parcela de semelhante riqueza, só no fim de 99 anos, contados da data da concessão, tomará conta da mina. Naturalmente os nossos vindouros acha-la-hão pouco mais ou menos tão rica como agora, e o tesouro do Estado virá a ter ali uma pingue dotação.

Jornal do commercio 4 julho 1865

Imagem: